ESCREVINHANDO

2005-11-01 16:10:39
SANTANA vs SÓCRATES
ou
Defeitos ou Traços de Personalidade



Numa das suas hilariantes bandas desenhadas, Mafalda entrega a um amigo a lista dos seus “defeitos”, respondendo este que não são defeitos mas apenas traços da sua personalidade.

Talvez se analisarmos com um pouco mais de profundidade os traços de personalidade de cada um dos actuais candidatos ao cargo de Primeiro Ministro consigamos perceber melhor porque Sócrates evita os debates com Santana? Ou o que levará Santana a saltar de projecto para projecto? Ou porque será que Cavaco é “incompatível” com Santana? Ou ainda porque sobressaiu Sócrates no governo de Guterres?

São muitos e diversos os instrumentos de “tipificação” de personalidades, que foram desenvolvidos e são comummente usados, nomeadamente como ferramentas de gestão de Recursos Humanos. O MBTI – Myers Briggs Type Indicator é, de todos estes instrumentos, um dos mais antigos, mais fiáveis e, talvez por isso, o mais utilizado entre as grandes multinacionais em todo o mundo, tendo sido aplicado a mais de vinte milhões de Pessoas em todo o mundo.

É baseado nas teorias de Carl Jung (psicólogo Suíço que viveu no início do século passado) sobre tipos psicológicos e foi desenvolvido nos Estados Unidos da América por Katharine C. Briggs e sua filha Isabel Briggs Myers, partindo da ideia que todos nascemos com propensões naturais (por exemplo, para sermos Extrovertidos ou Introvertidos), que vamos desenvolvendo ao longo da vida e que vão definindo o nosso “tipo psicológico”. São as seguintes as “propensões” (ditas opostas), que são dispostas em quatro escalas, criando 16 tipos de personalidade:

Introversão (I) vs Extroversão (E)
Sensitivo (S) vs iNtuitivos (N)
Emocional (F) vs Racional (T)
Julgador (J) vs Perceptivo (P)

Aplicar o sistema de tipificação psicológica MBTI a José Sócrates e a Santana Lopes sem o uso de qualquer questionário, usando apenas o conhecimento que deles temos através dos seus comportamentos continuados que nos chegam através dos media, não passa de um mero exercício de “adivinhação”, sem qualquer base científica. Confesso, no entanto, que foi um exercício muito divertido.

Começando pelo primeiro factor, a preferência em termos de orientação da atenção: Extroversão (E) (preferencialmente focados no mundo exterior) vs Introversão (I) (mais virados para o mundo interior). Parece claro que ambos são bastante Extrovertidos, embora Santana mais do que Sócrates. Ambos são mais orientados para o exterior, gostam de estar rodeados de “público”, tem interesses variados, são homens de acção, gostam mais de falar do que de escrever e são rápidos a decidir, fazendo-o, por vezes, sem dominar todos os elementos.

Também no que se refere à forma preferencial de recolher informação: Sensitivos (S) (usando mais os sentidos) vs iNtuitivos (N), (usando mais a intuição), me parece que não existem diferenças de maior. Na minha opinião ambos são mais Intuitivos (N) (também aqui Santana em maior grau que Sócrates), caracterizando-se por serem mais conceptuais que “terra a terra”, preferindo a exploração de novas possibilidades à mera resolução dos os problemas concretos. Interessam-se apenas a “big picture”, desprezando os detalhes, sendo também conhecidos por terem picos de energia, nunca desdenharem um bom desafio (Santana costuma afirmá-lo com orgulho) e por não gostarem de “rotinas”.

Curioso é o facto de nestes dois factores, eles serem exactamente o oposto de que era (e é) Cavaco Silva. De facto este ex-ministro é claramente um IS, ie, Introvertido (mesmo que se esforce por disfarçar) e Sensitivo. Este tipo de personalidade caracteriza-se por preferir a concentração, o sossego e a decisão individual. Gostam de se basear factos e dados precisos e concretos e de planear, passo a passo, um projecto, seguindo-o até ao fim. Pensam bem antes de agir e não se importam de levar o tempo que for preciso para atingir os seus resultados.

As diferenças entre Sócrates e Santana começam nas preferências quanto à forma de tomar decisões: Racionais (T do Inglês thinking) que preferem decidir com base em escolhas lógicas e objectivas vs Emocionais (F do Inglês Feeling) que ponderam essencialmente o impacto que as suas decisões têm nas pessoas. Neste aspecto, Santana tem dado sinais de ser mais “Emocional” (F), enquanto Sócrates parece mostrar características mais “Racionais” (T). Quando tomam decisões, os Emocionais preocupam-se muito com a harmonia, o evitar de conflitos, o agradar a todos, o que, por vezes, os leva a evitar (ou a mudar constantemente) as decisões com impacto mais negativo.

Sócrates tem dado indicações de ser mais lógico e racional, gostando de analisar os problemas e de organizar a sua solução. Este tipo de perfil prefere as ideias às emoções das pessoas. São normalmente firmes nas suas decisões (a sua “teimosia” quanto à “co-incineração é um bom exemplo). Como acreditam e valorizam essencialmente a lógica subjacente a uma “conceito” e são entusiastas na sua defesa, podendo tornar-se duros e impiedosos na sua aplicação.


Parece existir também uma diferença significativa entre ambos na forma como se relacionam com o mundo exterior: Julgadores (J) (gostam de viver de forma estruturada e controlada) vs Perceptivos (P) (mais espontâneos e flexíveis). Sócrates tem dado sinais de ser mais J, ie, “mais estruturado e controlado” (daí que não goste da imprevisibilidade dos debates), gostando de ter tudo organizado (o teletexto é um bom exemplo) e calendarizado, tendo melhores desempenhos quando pode seguir um plano (o que explica o tipo de debate imposto). Gostam de tomar decisões e fazem-no com (por vezes, demasiada) facilidade.

Foi este entusiasmo e firmeza típico dos Racionais que, na minha opinião, fez José Sócrates sobressair num governo cujo perfil era esmagadoramente “Emocional”, sendo o seu expoente máximo o ex - Primeiro Ministro António Guterres, que demonstrou sempre fortes características Emocionais e Perceptivas (FP).

Santana Lopes tem demonstrado ser mais P, ie, “ mais flexível e espontâneo”, tendo excelente capacidade para se adaptar bem a situações de inesperadas e conviver bem com problemas que não domina em profundidade, encontrando soluções de ultimo minuto. Não é, pois, de estranhar o seu “jeito” e, consequentemente, a insistência em trazer Sócrates para o campo dos debates, onde sabe que está em vantagem.

As pessoas com este tipo de perfil preferem concentrar a sua energia em decifrar um problema, mais do que em tomar a decisão para o resolver. Possuem uma especial propensão para iniciar diversos projectos ao mesmo tempo, deixando muitos (em especial os mais longos e desagradáveis) por acabar. A conjugação dos factores F e P em Santana pode explicar não só o seu conhecido “abandono de projectos a meio”, como o seu comportamento “errático” no que se refere à tomada de decisões.

Em suma e com as limitações (sem uso de qualquer ferramenta) próprias deste tipo de apreciação, parece-me que no caso de José Sócrates estaremos perante um perfil de tipo Extrovertido (E), iNuitivo (N), Racional (T) e Julgador (J) – ENTJ, enquanto no caso de Santana Lopes estaremos perante um perfil de tipo Extrovertido (E), iNtuitivo (N), Emocional (F) e Perceptivo (P) – ENFP.

Tudo leva a crer que Sócrates (ENTJ) tem uma visão positiva do mundo, é decidido, confiante, gosta de acção e de planear a longo prazo. A sua racionalidade baseia-se em ideias, tornando-o analítico, lógico e difícil de convencer sem ser com argumentos da razão. Tem grande curiosidade por novas teorias e novos conceitos e prefere explorar possibilidades para futuro. Desvaloriza os detalhes (mesmo que importantes) e concentra-se apenas no que considera essencial. Um dos seus “handicaps” poderá ser o de tomar decisões demasiado rápidas, sem ouvir outras sensibilidades e sem dominar todos os aspectos do problema. Se o seu racionalismo não for devidamente amenizado, poderá correr o risco de se tornar surdo aos sentimentos das pessoas, teimoso e mesmo despótico.

Santana (ENFP) é afectuoso, entusiasta, imaginativo e dotado, sendo capaz de fazer tudo aquilo porque se interessa verdadeiramente. É um inovador, gostando sempre de perspectivar novas formas de fazer coisas. Detesta tudo o que seja rotina e sente-se estimulado pelas dificuldades e desafios, dedicando sempre a sua enorme energia ao seu último projecto, o que o leva a saltar de uns para os outros, muitas vezes sem acabar os anteriores. Gostando de pessoas, é excelente na transmissão aos outros o seu entusiasmo, sendo capaz de os inspirar. A pouca atenção a detalhes e a sua confiança (em demasia) na sua capacidade de improviso, leva-o a correr riscos que, por vezes, lhe saem caros.

Dizem os especialistas “destas coisas” que não há “tipos” bons nem maus. Cada um tem os seus aspectos positivos e negativos. Mas quando se trata de desempenhar funções que podem decidir sobre aspectos muito importantes da vida de muitas pessoas, escolher o “tipo” certo para o momento certo, pode significar para um País a saída ou a continuação em crise.

José Bancaleiro,
Dir. Recursos Humanos da OPCA, Coordenador dos EMBAs da UAL
Lisboa, 15 de Fevereiro de 2005


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